quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Hebreus 7 - um evangelho sem a supremacia de Cristo ( o retorno a escravidão da lei)

UM EVANGELHO SEM A SUPREMACIA DE CRISTO

Texto Bíblico: Hebreus 7.4-28
Meus queridos irmãos, com o progresso da fé chamada evangélica pelo mundo, uma preocupação  tem me surgido ao coração... esta fé que tem sido propagada e alardeada, é de fato a fé evangélica? O que se tem visto e ouvido sobre a fé atual é algo advindo do Evangelho de Cristo Jesus? O que temos sido confrontados, como pastores e crentes e muitas vezes seduzidos a seguir, é o verdadeiro evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo?

A primeira literatura do NT a ser escrita foi à carta de Paulo aos Gálatas (aprox. 55-60dC). Esta carta foi a página de abertura dos escritos bíblicos do NT. E o que trata esta carta? Paulo começa este seu escrito, escrito inaugural da revelação divinal no NT, escrevendo a uma igreja cristã que nos seus primeiros dias, era conhecida como uma igreja que vivia a difusão e a expansão evangelística – vide Atos apóstolos...  A esta igreja cristã, Paulo diz:
Admira-me que estejais passando tão depressa daquele que vos chamou na graça de Cristo para outro evangelho, o qual não é outro, senão que há alguns que vos perturbam e querem perverter o Evangelho de Cristo. Mas ainda que nós ou mesmo um anjo vindo do céu vos pregue evangelho que vá além do que vos temos pregado, seja anátema” (Gl 1.6-9).

O cerne do problema que gerou esta primeira literatura neo-testamentária, era o fato de que com o crescimento exponencial, os cristãos da região da galácia (que compreendia diversas igrejas) estavam retrocedendo a padrões, costumes e a comportamentos que eram alheios ao Evangelho de Cristo. Isto é, aquelas igrejas estavam vivendo um Evangelho que nada mais era do que um sincretismo religioso. No dicionário: sincretismo religioso é um fenômeno que consiste na absorção de influências de um sistema de crenças por outro. O sincretismo religioso, atrelava a base judaica (a Lei) com o Evangelho de Cristo (a Graça).

Mas meus queridos... isso não aconteceu somente naquela época. Até hoje, vemos instituições, comunidades, oradores convocando as pessoas a se associarem a este sincretismo religioso que em ultima análise – revela a inexistência da supremacia de Cristo. O fazem como novidade, sem se atentarem para o fato, de que isso é o erro remoto, senão o erro inaugural da fé:

No Evangelho apregoado hoje, temos o mesmo erro com os seguintes trajes:
- Pastores que necessitam se sacrificar pelos seus fiéis, com jejuns, subidas aos montes, auto-penitencias... pois talvez o sacrifício de Cristo não tenha sido eficaz. Muitos dizem: agora eu vou jejuar dois dias para que seu pedido seja atendido... e Deus vai ouvir as minhas orações e vai te conceder sua benção.... Ora, meu querido irmão, me desculpe - Se Deus não vê o sacrifício de Cristo, seu filho... o que dirá destas besteiras travestidas de evangelho da auto-flagelação?.
- São denominações reconstruindo templos Salomônicos, talvez para ressuscitar as práticas de fé dos ancestrais judaicos, quem sabe, até com oferendas de animais – numa clara alusão ao fato de que, a obra de Cristo não é a base deste evangelho que se tem anunciado. O resgate de templos passados  nega o que é a obra de Deus nopresente: Pois em Cristo... nós somos o verdadeiro templo do Espírito Santo.
- Dogmas sacralizados baseados na manipulação emocional de que os condicionantes do pacto de Deus com Israel no AT continuam como base de bênção e maldição para os dias atuais... O condicionante para Israel – obediência – vida; desobediência – morte; já revelou que morreríamos. Que não seríamos capazes de obedecer como convém. Por isso alguém morreu em nosso lugar, alguém tomou a maldição sobre si... Jesus. Ao retomarmos estes princípios estabelecidos pelas ordenanças antigas, outra coisa não fazemos – senão negarmos a supremacia e a obra de Cristo.

A ignorância das Escrituras tem produzido devotos cegos e manipulados a todo tipo de religiosidade que nada encanta os olhos de Deus.



Narração:
A Epístola aos Hebreus deveria ser mais estudada. Este é um dos livros mais negligenciados do NT. Por tratar da exposição do Evangelho ante a fé judaica, não nos interessamos por estudá-lo como convém. Porém, esta carta nos faz ver exatamente estas questões que não nos permitiriam o engodo de novos evangelhos com velhos erros.

O esboço desta epístola aos Hebreus pode ser assim visto (Fritz Laubach – Comentário Esperança aos Hebreus)
1.      A superioridade universal e infinita de Jesus, o Cristo (1.1-4.16)
2.      A superioridade inquestionável do sacerdócio do Senhor (5.1-10.39)
3.      A superioridade da pessoa e do poder de Jesus Cristo (11.1-13.19)
4.      Considerações finais e bênção (13.20-25)

O texto que lemos para nossa exposição encontra-se exatamente na seção – a superioridade inquestionável do sacerdócio do Senhor. Neste capítulo 7, o autor da epístola trava uma argumentação intensa para mostrar aos seus leitores cristãos as diferenças e a superioridade de Cristo sobre todas as ações religiosas decorrentes e recorrentes do AT. Que as práticas sacerdotais do AT sucumbiram. Que atrelar o Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo a comportamentos sacerdotais do AT, vivência escravizadora da Lei,  é uma prática absurda, infundada e que nega a excelência da fé evangélica. É incorrer naquilo que Paulo dizia aos Gálatas: “Estão passando tão rapidamente para outro evangelho”.

É preciso resgatar o Evangelho de Cristo, evidenciar a supremacia de Cristo sobre qualquer ritual, condição sacerdotal e outras realidades mais.

O EVANGELHO DA SUPREMACIA DE CRISTO

1.      Na sua fundamentação sacerdotal: Jesus é sacerdote segundo a ordem de Melquisedeque

Os sacerdotes do AT eram herdeiros de Abraão. Jesus não – é da ordem de Melquisede.  A ordem Levitica é vista como descendência de Abraão. E em Abraão a sua descendência está vinculada – no gesto deste dedicar o dízimo a Melquisedeque, revelando a inferioridade deste sacerdócio para com o de Melquisedeque. No verso 7 declara: “o inferior é abençoado pelo superior” numa alusão que Abraão dedica seu dízimo e é por Melquisedeque abençoado. O verso 4 inicia a seção enfatizando a supremacia deste sacerdócio dizendo: “Considerai, pois, como era grande esse a quem Abraão, o patriarca, pagou o dízimo tirado dos despojos”.

Toda a casta sacerdotal de Israel tinha sua base em Abraão. Ele é o pai de uma nação monoteísta. Ele é a origem de uma raça, e dele advém toda a descendência que cultuava a Deus. O sacerdócio no AT tinha em Arão sua gênese funcional. A tribo de Levi foi a escolhida para o exercício do sacerdócio entre as demais tribos de Israel. Não existiam sacerdotes de outras tribos em Israel. A tribo de Levi foi que concedeu sacerdotes e levitas – e como tal, deviam viver do que arrecadassem no culto, sacrifícios e ofertas.

No verso 14 lemos: “é evidente que nosso Senhor procedeu de Judá, tribo à qual Moisés nunca atribuiu sacerdote, constituído não conforme a lei de mandamento carnal, mas segundo o poder de vida indissolúvel... Tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedeque”.

O verso 22 continua dizendo: “por isso mesmo, Jesus se tem tornado fiador de superior aliança”.

O sacerdócio de Jesus é espiritual – o de Levi terreal. O sacerdócio de Jesus é atemporal... o de Levi é condicional. Estamos trocando a excelência pela obsolência. O essencial, pelo ultrapassado.

O que isso quer dizer. Quer dizer que o Evangelho que temos visto ser anunciado em muitos lugares, é um evangelho reduzido, esvaziado da grandiosidade e da supremacia de Cristo. Substituido por um evangelho centrado no sacerdócio humano, de ordenanças temporais que já foram revogadas (verso 18) – “por causa de sua fraqueza e inutilidade, se revoga a ordenança anterior”...

Temo que estejamos vivendo apenas aquilo que já foi revogado. Que nosso evangelho tenha se tornado obsoleto pelos vínculos sacerdotais de um evangelho desviado de sua rota!



2.      Na sua prática cerimonial: A lei foi revogada devido sua inutilidade e fraqueza

O Evangelho da suficiência de Cristo extirpa a Lei como paradigma para algo melhor... Verso 19 diz dessa inutilidade: “a lei nunca aperfeiçoou coisa alguma”. E o Verso 18 declara sua revogação: “assim se revoga a anterior ordenança”. No verso 12 e 13, lemos que a supremacia de Cristo como sacerdote segundo a ordem de Melquisedeque, estabeleceu uma nova ordem... a antiga passou: “Pois, quando se muda o sacerdote, necessariamente há também mudança de lei”. Conquanto a Bíblia diz isso, há ainda aqueles que continuam a fazer da lei o referencia, a diretriz comportamental. Não houve uma reforma... não houve uma melhora... o que o texto diz é que houve mudança de lei. Cristo cumpriu a Lei porque nós jamais o faríamos por nós. Uma vez cumprida as exigências da Lei, ele a substituiu por algo superior...

Se a Lei foi revogada, ruiu em seus aspectos cerimônias – culticos – morais....isso quer dizer que:
a.      O culto com sacrifício de animais foi destituído. Jesus é o Cordeiro que faz o sacrifício perfeito diante de Deus, em nosso favor... verso 27 diz: “não tem necessidade, como os sumos sacerdotes, de oferecer todos os dias sacrifícios, primeiro, por seus próprios pecados, depois, pelos do povo, por que Cristo fez isto uma vez por todas, quando a si mesmo se ofereceu”.
b.      Os dízimos remontam também a velha ordenança. É assim que tem início o texto do capítulo 7 – falando que Abraão dizimou diante de Melquisedeque e que os descendentes de Abraão (sacerdotes levitas) recolhiam o dízimo de seus irmãos.
·        O dízimo antes da Lei Mosaica: Gn 14:17-20 e Gn 28.20-22 são os dois textos que apontam uma ação de dizimar; uma de Abraão e outra de Jacó.
1.      Estes dois são os únicos exemplos de dizimar que podem ser encontrados no Velho Testamento antes da Lei ser dada. Ambos são exemplos de algo voluntário, e nenhum desses dois dizimar foi pedido por Deus. Em nenhum dos personagens [Abraão e Jacó, que deram estes dois dízimos,] vemos um exemplo de dizimar como uma prática geral [habitual, constante] das suas vida. De fato, na vida de Abraão, parece que temos um dízimo como algo que ele só deu uma única vez em sua vida, e foi [um dízimo] dos despojos de uma vitória militar, dado a um sacerdote de Deus. Se nossa única evidência para exigir crentes sob o Novo Pacto a dizimarem se apóia nestas duas passagens de Gênesis, parece-me que estamos nos apoiando em um fundamento muitíssimo inseguro!

·        O Dízimo estabelecido pela Lei Mosaica.
1.      Levítico 27:30-33; a primeira ordenação
2.      Números 18:21-24; o dízimo para os levitas
3.      Deuteronômio 14:22-27; o dízimo para festival
4.      Deuteronômio 14:28-29; o dízimo para pobres
5.      Mais Neemias 12:44 e Malaquias 3:8-12.

O dízimo sob a ordenança da Lei era para o sustento dos levitas que não tiveram herança de campos. Era para abastecer a obra, era para socorro aos pobres e era resultado da aliança de Deus com Israel – Se obedeceres tereis vida; se não obedereces recebereis maldição.... Por isso – Malaquias com toda razão anuncia: “com maldição sois amaldiçoados...”!

·         E o dízimo no Novo Testamento? No Novo Testamento, temos citações de Jesus durante o seu ministério e temos citação em Hebreus. As citações de Jesus apontam pratica religiosa sob domínio da lei assim como Hebreus. Mas a Lei em Cristo, caiu.
Assim, não temos em nenhuma das cartas as igrejas do NT, qualquer menção de dízimo. Não parece estranho? As igrejas eram gentílicas, nunca tiveram pratica de dizimarem, como faziam os de Israel.. e nenhum dos autores bíblicos do NT faz qualquer menção disso? Seria pelo fato de todas elas serem fiéis, exemplares? De jeito nenhum! As igrejas tinham problemas de todo tipo e não seria diferente na esfera do dizimo.
A questão era que o dízimo nunca foi pratica exigida das igrejas cristãs no NT. A contribuição sim... mas no formato da lei dizimal do AT não.
Nenhum oficial foi orientado a ser dizimista, não parece estranho; nem diácono e nem presbíteros. Mas foram orientados a serem generosos, contribuintes na obra e participantes da graça do sustento dos santos.

Assim, como o sacrifício foi abolido com a revogação da Lei – assim a exigência do dízimo no NT foi também. Faço minhas as palavras do Dr Augustus Nicodemus – Ele diz: “Você não encontra no NT um mandamento para que o cristão seja dizimista. Mas você encontra compromisso de sustento da obra do evangelho. Assim você pode ver:
a.      Todo crente tinha que ser contribuinte, todo crente tinha que participar do sustento da obra e isto é bem abundante nas páginas do NT.
b.      A contribuição era de ordem generosa. Movida pelo amor e pela alegria... “Deus ama a quem dá com alegria”
c.      A contribuição era baseada na proporcionalidade. – 2 Cor 8. 11 era conforme a posse de cada um. Cada um deveria contribuir de acordo com o que recebeu de Deus.”

c.      O Comportamento moral é norteado por outra tese. Se no AT pela percepção da santidade punitiva; de castigo e punição... no NT pela percepção da santidade amorosa de Deus.
·        Paulo disse assim: “Todas as coisas me são lícitas...” (1 Co 6.12). Paulo não está dizendo que algumas coisas são lícitas e outras não. Todas as coisas. Este texto está num contexto de litígio entre irmãos. E segue para tratar da sensualidade. Assim, Paulo em nenhum momento evoca o peso da lei para argumentar, para punie, para amedrontar, ameaçar.... Ele diz que são lícitas, mas...
a.      Não me convém
b.     Não me deixarei dominar
Paulo apela para a ordenança do amor revelado no Senhor, de uma consciência cativa desta graça. Madura, ciosa de todas as coisas.

Perdoe-me se eu estou te assustando. Mas o Evangelho da Supremacia de Cristo é este. Não este sincretismo religioso que não se sabe se ora é judaísmo, ora é cristianismo ou ora se torna seja lá o que for...


3.      Na sua esperança superior: A nossa esperança em Cristo transcende a morte
(continua)


Pr. Carlos Orlandi Jr

Aulas 3,4,5,6 EBD - Marcos (Capitulo 02: Religião sem respostas)

UMA RELIGIÃO SEM RESPOSTAS...

Texto Bíblico: Marcos 2.1-28

Estudos apontam que a maior parte das pessoas, procura uma religião no afã de encontrar respostas aos porquês da sua vida. Porque as coisas são do jeito que são ? Porque estou aqui ? Porque fui criado ? Porque nasci ? Porque tais situações me acometem na caminhada ? Porque não sou bem sucedido no que faço ? Porque meu casamento não vai bem ? Porque... Porque...

Todavia, queridos, é bem sabido que há uma infinidade de pessoas que estão desacreditadas com a religião devido à incapacidade de a mesma prover respostas concretas e verdadeiras às suas inquietações. Não são poucas as pessoas que frustradas, iludidas e enganadas em nome da fé caem no ceticismo, no criticismo e na indiferença. Há um exército de pessoas assim por todo canto.

Mas deixe-me fazer uma consideração clara neste momento: Religião não traz respostas! Religião nunca trouxe e jamais trará alguma resposta satisfatória a crise do ser. Religião traz leis, religião celebra ritos e deveres que visam anestesiar as questões latentes da alma – jamais responder.

Narração:
Em Marcos 2 temos exatamente esta caracterização. O capítulo todo é tomado de um confronto entre Jesus e os religiosos de seus dias. Tais religiosos são denunciados como sendo: sacerdotes (por inferência de ação), escribas e fariseus. Grupos que se assenhorearam da religião e que a manipulavam para propósitos que jamais foram os estabelecidos por Deus.

Neste capítulo, é inegável que Jesus, após ter iniciado seu ministério terreal, se levanta contra o sistema religioso estabelecido e distorcido em nome de Deus. Ou seja, Jesus vem em nome de Deus para confrontar aquilo que os homens criaram em nome de Deus. Neste sentido, não são os discursos de Jesus que confrontam, mas suas ações... Assim, o comentarista Euclides Balancini declara: “A prática é que incomoda!”

No capítulo 2 do Evangelho de Marcos, em meio as mais diversas ações de Jesus, em variados lugares, o que se revela é a perplexidade da religião em não conseguir responder as questões da vida. Dos religiosos surgem 4 perguntas, 4 indagações das coisas mais básicas da fé, revelando que religião não tem respostas; a relação com Cristo, sim. Não somos chamados em Cristo para uma nova religião – somos chamados Nele para um novo caminho! As quatro indagações, os quatro porquês de Marcos 2, emergem dos religiosos; e são:
         - 2.7: Porque fala ele deste modo ? Isso é blasfêmia!
         - 2.16: Porque come ele com pecadores ? Isso é impureza!
         - 2.18: Porque jejuam os fariseus e os teus discípulos não ? Isso é falta de santidade!
         - 2.24: Porque fazem o que não é lícito aos sábados ? Isso é pecado!

Infelizmente, a estratificação histórica da Igreja, substituiu a comunidade de Cristo. Esta comunidade despojada, não institucionalizada, questionadora das estruturas de dominação da história, celebradora da vida em graça – passou a ser representada por sistemas, autarquias, presidentes, organizações complexas e improdutivas, comissões de omissos discursivos... a Igreja reproduz em muitos lugares hoje, o papel dos religiosos dos dias de Jesus: Não são fonte de respostas, são agentes promotores de mentira, engano e frustração!

Vejamos o Texto:
1ª. Cena: Marcos 2.1-12 – A Cura do Paralítico em Cafarnaum
O texto inicia revelando que em casa, Jesus ladeado de pessoas, ensina a Palavra (v.1-2), sob o olhar suspeito e inquiridor dos escribas (v.6). O lugar até então, do ensino da Palavra, da leitura da lei, era a Sinagoga. Isso representava a quebra de um paradigma, de uma estrutura já instalada.

Neste ínterim, é levado à casa de Jesus, um homem paralítico, conduzido por quatro pessoas. Estes impossibilitados de o conduzirem à presença do Mestre, ousadamente, descobrem parte do eirado do teto e fazem descer na maca o amigo. Tal ação revelou-lhes diante de Jesus, a fé (v.5) que os movia. Todavia, antes de curar o paralítico, Jesus perdoa-lhe os pecados (v.5). Tal gesto suscitou indignação nos religiosos, pois viam na ação dos sacerdotes da religião judaica, o ofício da remissão dos pecados. O sacerdote era figura instituída para levar o sacrifício no templo, para realizar o sacrifício, para aspergir o sangue do animal vitimado sobre o ofertante e assim declará-lo penitenciado. O pecado precisaria ser penitenciado, e para isso, toda uma estrutura de ganho econômico estava estabelecida. Compra de animais, ingresso ao templo, cambistas, peregrinações, etc... muitos lucravam com o sistema de penitencia de pecado. Jesus interpõe-se a esta estrutura corrompida. Jesus declara perdão sem o sacrifício animal, executado no templo por mãos de um sacerdote. Ele era o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo (João 1.29), ele é o sumo-sacerodote  que não tem a linhagem de Arão, mas de Melquisedeque (Hebreus 5.5-6). Ele declara o perdão pela graça, sem penitência de ação humana.

Diante deste quadro, manifesta-se a primeira indagação da religião: Por que fala ele deste modo ? Isto é blasfêmia! (v.7).

O que de fato era blasfêmia ? Perdoar em nome de Deus o pecado, ainda mais na condição de Messias negligenciado por eles, ou tornar a penitência do mesmo um excelente negócio para obtenção de lucros a partir da religião ? O que de fato é blasfêmia, agraciar um homem sofrido ou explorar sua condição em nome da fé ? Não seria blasfêmia a venda de animais (associados aos sacerdotes) no templo para os sacrifícios de penitência ? Não seria blasfêmia a rejeição que os sacerdotes faziam do animal trazido de casa, para obrigar o ofertante realizar gastos que lhe proporcionariam lucros em Jerusalém ?

A religião estratificada faz do sistema seu deus. Contradizê-lo é uma blasfêmia. Opor-se a ele é correr o risco de vida. A religião não traz respostas a angustia humana, pois ela pensa o sistema. Ela se nutre dele e por isso servir a Deus significa, servir ao sistema, mesmo que isso seja injusto, corrupto, anti-ético e explorador.

Jesus responde a indagação da religião oferecendo aos seus intérpretes, a possibilidade de uma ação de amor: “o que é mais fácil: Perdoar pecados ou curar um paralítico ?” Para a religião representada pelos escribas, os dois fatos eram impossíveis – só Deus poderia realizá-los. Então, Jesus se revela Deus: “Para que saibais que o Filho do Homem pode perdoar pecados, disse ao paralítico: toma teu leito e anda” (v.10-11).

A religião especula, não fornece respostas e omiti-se diante da necessidade de ação. O relacionamento com Deus, em Cristo questiona a instituição em nome de Deus que massacra o homem, manifesta graça ao coração sofrido, e habilita o homem a retomar sua caminhada! O resultado da religião é indignação e amargura; o resultado do relacionamento com Cristo é graça e louvor a Deus!

2ª. Cena: Marcos 2.13-17 – O Chamamento e a Festa dos Pecadores
O segundo texto inicia com uma caminhada de Jesus junto ao Mar da Galiléia. Novamente, ele faz deste espaço o local do ensino da Palavra, na contra-mão daquilo que a religião extra-oficialmente estabelecera – a sinagoga (v.13).

Ao retornar a cidade, Jesus passa por uma coletoria de impostos. Ora, a classe dos coletores de impostos era uma classe mal afamada. Tais agentes alfandegários eram conhecidos por suas extorsões econômicas (não muito diferente daquele que os sacerdotes realizavam em Jerusalém). Usavam de seus postos para alcançarem lucro, cobrando o que era além do devido nas taxas. Assim, tais coletores enriqueceram, faziam fortuna. Este é o caso citado no Evangelho de Lucas, de um coletor de impostos chamado Zaqueu.

Jesus passa pela coletoria e ali estava Levi envolvido com o trabalho. Contas, cálculos, projeções etc. Jesus o chama para que este o seguisse. Levi larga tudo para seguir a Jesus e em seguida oferece um banquete ao Mestre e seus discípulos. O comentarista Adolf Pohl informa que esta expressão: “Jesus e seus discípulos” (v.15) é usada pela primeira vez no Evangelho como clara informação do surgimento da comunidade de Cristo – que tornar-se-ia a igreja.

Jesus está à mesa. O banquete é uma grande festa, pois o termo: “achando-se Jesus à mesa”, literalmente significa “deitado”. Os banquetes forneciam almofadas e poltronas para que os convidados ficassem confortáveis durante a celebração. Comendo e bebendo com os pecadores (alusão a classe de publicanos), Jesus suscita outra indagação da religião:

“Os escribas e fariseus, vendo-o comer na companhia dos pecadores, indagaram: Por que come (e bebe) ele com os publicanos e pecadores?” (v.16)

A pergunta tinha sentido religioso e cerimonial. Um judeu não fazia refeição com estranhos e nem participava de banquetes para não incorrer, na ingestão de alimentos, a impureza religiosa ou cerimonial. Para a religião instalada, a pureza vinha do afastamento, da rejeição, da segregação de pessoas e coisas. Não toque nisso, não coma aquilo.

Pela segunda vez no Evangelho, Jesus age na conta-mão da pureza institucional estabelecida: primeiro ele tocou o leproso (1.40-42), depois sentou com publicanos a comer e beber. A religião celebra a pureza na segregação; o relacionamento com Cristo, na aproximação. A religião celebra a pureza em ritos exteriores, do que vem de fora para dentro – como comida e bebida; o relacionamento com Cristo celebra a pureza pelo que sai do interior do homem, do que advém do coração (Mateus 15.16-20). A religião entende a pureza como situação circunstancial; a fé em Cristo vê a pureza como condição na qual somos inseridos pela graça de Deus, apesar de nunca deixarmos de sermos pecadores. Não são as circunstâncias da vida, ou o que fazemos e deixamos de fazer; mas quem somos em Cristo.

A religião promove o ditado: “Diga-me com quem tu andas, que eu te direi quem tu és”, numa clara acusação de que Jesus não passava de um embusteiro pois assentava-se à roda dos escarnecedores (alusão aos publicanos). A fé em Cristo responde que o médico anda com doentes, mas ele mesmo, não é doente; antes, é um agente de promoção de saúde e restauração! “Os sãos não precisam de médico, e sim os doentes”. A religião promovia uma falsa percepção que pela segregação cerimonial as pessoas deixavam de ser o que de fato são: pecadores! Na comunidade de Cristo não há lugar para aqueles que não se confessam pecadores. São os pecadores que recebem a atenção do médico e o favor de Deus. Não os religiosos!
O resultado da cena novamente é distinto: enquanto a graça promove a festa e alegria entre pecadores; a pseudo-santidade gera nos religiosos revolta e dureza de coração.

3ª. Cena: Marcos 2.18-22 – A Questão do Jejum
Nesta terceira cena o espaço geográfico não é identificado. Pode-se estar ainda na casa de Levi, em meio ao banquete (o que é mais provável), pode-se estar em outro lugar, logo após a saída do banquete.

Mas o tema apresentado faz contra-posição a festança na casa de Levi. Se ali havia comida e bebida, a indagação era pelo jejum e abstinência. Daí a indagação da religião:

“Porque motivo jejuam os discípulos de João e dos fariseus, mas os teus discípulos não ?” (v.18).

A questão cerimonial do jejum, requeria do judeu que ao menos uma vez ao ano este jejuasse. O fariseu jejuava três vezes na semana. Os discípulos de João são envolvidos na questão, pois também eram de comportamento asceta. O jejum representava piedade e santidade. Lembrava a Daniel e seus amigos no reino da Babilônia, tempos de visitação de Deus no Antigo Testamento. Mas acima o propósito do jejum, era a evidência do quebrantamento interno do homem. Uma evidência externa de algo interno intenso e quebrantador. O jejum revelava humilhação, pano de saco e cinza eram acompanhados deste tempo. Mas para a religião estabelecida nos dias de Jesus, o jejum era glória, condição de orgulho e vanglória espiritual.

Ora, Jesus no sermão da montanha não desfaz do jejum. Quando aborda no sermão da montanha a temática da espiritualidade, Jesus usa três elementos para caracterizá-la: esmola (misericórdia ao próximo), oração (dependência de Deus) e Jejum (disciplina interior). Três frentes que a espiritualidade cristã deve trabalhar. O jejum está presente. Mas Jesus recomenda que o jejum não seja outdoor de piedade. Não serve para promover o mais santo em detrimento do menos santo como o faziam os hipócritas (Mateus 6.16-18). Jejum precisa ser expressão de humilhação e não de auto-exaltação!

Usar de elementos destinados a auto-piedade para promover espiritualidade social é hipocrisia comportamental! A religião adora isso. Move-se em torno desta realidade, estéril e débil. Não são poucos os casos conhecidos de pessoas que apegadas severamente a tais práticas, vivem por esconder nestas fachadas a maldade de seus corações apodrecidos.

A fé em Cristo rompe com estes paradigmas. Jesus não se ilude com a natureza humana. Jesus declara que mais importante que deixar de comer e beber, era ter relacionamentos fraternos, edificantes e verdadeiros. Isso está em consonância com o que Isaias 58.1-10 declara. Os mesmos que jejuavam, exploravam viúvas, declaravam corbã para ficar com o dinheiro dos familiares, usavam da máquina religiosa para explorar e escravizar pessoas, atando fardos pesados de deveres – que nem eles mesmos conseguiam cumprir.

Jesus não veio dar uma repaginada na religião institucionalizada. Ele veio apresentar algo completamente novo. Por isso a resposta a indagação da religião diz sobre o noivo: Os convidados do noivo, que são os que o amam, se alegram em sua presença; por isso não jejuam. Também, porque o que Jesus anunciava não se submetia as estruturas arcaicas, falidas e engessantes da religiosidade daqueles dias (nem das de hoje). O Reino de Deus não cabe nos sistemas humanos: ele rompe os odres velhos, ele é remendo novo que desgarça o resto da roupa velha...

O novo de Deus é que possibilita um mundo melhor. O novo homem criado a imagem de Cristo (Efésios 4.24) se antepõe ao velho homem comprometido com as tradições terreais. O novo coração (Ezequiel 36.26) anunciado pelo profeta, substitui o coração de pedra, insensível, impenetrável que a religião bajula; o novo nascimento (João 3.1-15) subverte a racionalidade religiosa em que nem mesmo os maiorais judeus conseguiam absorver! Destas três realidades: novo nascimento, novo coração, novo homem advém à base da fé cristã - novidade de vida (Romanos 6.4).

A religião celebra as estruturas velhas, arcaicas e tradicionalistas. A religião institucionalizada devota as manifestações de espiritualidade superficiais, externas e sem conseqüências sérias de mudança de vida. O relacionamento com Cristo celebra o novo de Deus, com Deus e para a glória de Deus!

4ª. Cena: O Problema do Sábado – Marcos 2.23 a 28
No capítulo 2 de Marcos, esta é a ultima cena. Jesus deixa as regiões de Cafarnaum e segue por outras paradas. O termo usado “atravessava” (v.23) denota uma viagem mais longa, o que provavelmente contrapunha-se aos 800 metros permitidos de caminhada em um sábado pelos judeus. Além da caminhada, pararam para colher espigas, devido a fome – o que era permitido aos viajantes daquele tempo, mas não no sábado. No sábado não lhes era permitido nem preparar refeição; esta deveria ser preparada no dia anterior.

Novamente, o texto chama a atenção para o olhar dos religiosos nas ações de Jesus e sua comunidade da discípulos. Diz o texto:

“advertiram-no os fariseus: Vê! Por que fazem o que não é lícito aos sábados ?” (v. 24).

O sábado era uma das observâncias mais importantes do judaísmo, pois identificava os judeus e os distinguia dos pagãos (segregação; exclusão). A violação do sábado era motivo até para a pena de morte. Os doutores da Lei enumeravam 39 trabalhos que não podiam ser feitos no sábado, inclusive preparar alimentos para refeição. Os discípulos eram acusados pelos fariseus de: colher, debulhar, prepara e comer.

A maneira que Jesus responde a indagação da religião é interessante. Vocês citam a lei, vocês se dizem conhecedores dos preceitos divinais – “vocês nunca leram o que fez Davi ?”(1 Samuel 21.2-7). O Messias é filho de Davi.  A citação de Davi trazia sério embaraço para a estrutura religiosa daqueles dias. Não podiam recriminar Davi, ungido do Senhor. Adolf Pohl afirma que “de várias maneiras eles se esforçavam por inocentar Davi de uma transgressão da lei, mas Jesus não se mostra constrangido. Davi fizera realmente – como o próprio Jesus – algo que, pela letra da lei, não é lícito”.

Mas a interpretação religiosa proibitiva servia de instrumento de acusação. Este é o termo da religiosidade institucionalizada. A hermenêutica do reino de Deus resgata a conceituação equivocada que a pressão religiosa estabeleceu: “Toda e qualquer lei, deve estar a serviço do homem e não vice-versa”.  Aquilo que nos parecia uma acusação sobre detalhes da lei serve para Jesus negar a concepção religiosa (dos fariseus) sobre uma lei sagrada (o homem feitopara o sábado), para resgatar a verdadeira concepção da lei de Deus (o sábado foi feito para o homem).

Assim, mais uma vez, Jesus revela a falácia da religião. A hermenêutica da morte, pois quebrar o sábado segundo o costume e tradição – levava a condenação de morte. Assim é que os religiosos se retiram: indignados com a promoção da vida, em comerem no sábado; mas não se importando de planejarem a morte (no mesmo dia de sábado – 3.6).

Jesus enfatiza com isso que “todo o projeto de Deus é em favor do homem”. Foi assim com Davi, era repetido por Jesus. A celebração da vida é a causa maior do caminho de fé; não o é, todavia, no caminho da religião. Justifica-se a morte para preservar uma maneira míope de enxergar as coisas de Deus.

Conclusão:
Quatro indagações que para os religiosos dos dias de Jesus, não possuíam respostas. A religião é sempre assim: mascara a verdade com superficialidades e não satisfaz com respostas precisas a ninguém. Pelo contrário, àqueles que estão à serviço da religião terreal, estão por toda parte, no judaísmo, no cristianismo, no pastorado... aliás, sem qualquer intenção de defender a classe pastoral de hoje, o que mais se vê são pastores a serviço deste tipo de religiosidade. Manipuladores da fé, escravizadores do rebanho, impositores de normas que lhes sejam sempre favoráveis, promotores da morte em nome da vida!

Muitos templos são verdadeiros quartéis generais desta religião terreal, mesmo que tragam em suas frentes, o nome de Jesus. São pastores e comunidades que estão a ressuscitar a velha religião farisaica, sem resposta a questões da alma e da vida humana. Excludentes, castradores das mais singelas alegrias, comprometidos com a superficialidade e a artificialidade da fé.

Por isso, não me impressiona a quantidade de gente desiludida com a religião e seus líderes atuais. Acho por mim, até bom. Para que o verdadeiro se manifeste, o falso precisa se revelar como de fato o é – ineficaz, terreal e demoníaco!

Rev. Carlos Orlandi Jr




aula 01 EBD - Marcos (2 semestre)







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